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Tarifa extra de 40% nas exportações aos EUA desarticula cadeias exportadoras, mas setor aguarda desfecho positivo com americanos e europeus

02 de janeiro de 2026

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Das exportações de pescados feitas pela Cais do Atlântico, em Santa Catarina, cerca de 50% eram destinadas ao mercado americano, segundo o diretor, Jean Carlos Gonçalves. “Estávamos, ano a ano, estreitando laços com os clientes americanos e customizando produtos para esse mercado, moldando a operação para poder servi-lo com certificações específicas e equipamentos específicos. Foi um impacto muito significativo nas exportações e na nossa operação como um todo”, conta. Ele relata efeitos imediatos: cancelamentos de pedidos e adiamento de negociações. 

A experiência de Gonçalves ilustra o que se seguiu à decretação do tarifaço. Na C.Vale, uma das líderes na remessa de tilápia aos EUA, com volume de 540 toneladas/mês, o gerente industrial, Jair de Sordi, aponta redução de 71% no volume e 64% no faturamento. Para lidar com a situação, a cooperativa reduziu o volume exportado, mas manteve a parceria com importadores norte-americanos. “Acreditamos em uma solução negociada para as tarifas”, explica.

A solução negociada parecia destinada a se concretizar em 20 de novembro, quando o governo Trump anunciou a revogação da taxa extra de 40% contra mais de 200 produtos, entre os quais café, carne bovina, frutas, suco de laranja, cacau e outros itens. De pescado, porém, nada. A Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos calcula que 36,5% dos produtos brasileiros seguem taxados, entre os quais todos os itens da pauta exportadora de pescado. Deixar de incluir a proteína aquática na lista de exceções frustrou todo o setor. “Se o governo não teve influência alguma na negociação e foi uma decisão unilateral dos EUA, acreditamos que aconteceu em cima de um volume de produtos que contribuem para a inflação”, avalia Lobo, da Abipesca. 

De fato, a decisão não se aplica apenas ao Brasil. México e Canadá, por exemplo, também não viram o pescado entre os 200 itens com tarifas extras removidas, o que motivou o desconforto do National Fisheries Institute (NFI), entidade análoga à Abipesca nos EUA. “Embora o pescado seja a proteína animal mais saudável do planeta, o aumento dos custos a tornou inacessível para muitas famílias. Instamos o presidente [dos EUA, Donald Trump] a incluir todos os produtos de pescado nos ajustes tarifários. Isso é fundamental para reduzir os preços ao consumidor, manter empregos americanos no setor de frutos do mar e garantir que os americanos permaneçam saudáveis e bem alimentados”, declarou em comunicado Lisa Wallenda Picard, presidente e CEO da NFI.

Na avaliação de Jairo Gund, CEO da Abipesca, o pescado brasileiro faz parte das soluções dos problemas americanos de abastecimento e a NFI sabe disso. “O Brasil vinha [despontando] como alternativa de redução da dependência do produto asiático. Os EUA importam 85% do que consomem de pescado, sobretudo da China - que representa 52% do que importam.” 
 

Prejuízos x diversificação

Na Allmare Alimentos, que exporta camarão, lagosta e pescados, a gerente de exportação Fernanda Studart, relata queda de receita, renegociação de contratos, redirecionamento de cargas e aumento de estoques. “As novas tarifas impostas afetaram muito nossa atuação, uma vez que os EUA são um dos principais destinos para nossos produtos”. Mesmo caso da Brazilian Fish: “Houve redução da margem, queda de volume nas renegociações de contratos e aumento dos estoques”, explica a diretora de exportação, Natasha Castellan. Concorrente no mercado do hemisfério norte, mas tamnbém no mercado interno, a Fider tentou outras opções, mas teve de renegociar. Juliano Kubitza, diretor da Fider Pescados, destaca que o maior impacto inicial foi a queda nos preços ofertados. “Com isso, passamos a buscar outras opções e reduzimos os negócios com os EUA”.

As “outras opções” são menos restritas no caso de peixes selvagens, cuja diversificação de mercados é mais comum. “Por sorte, não sei se posso colocar assim, nós não dependemos somente do mercado americano”, enfatiza Gonçalves. A Cais do Atlântico exporta para Canadá, Colômbia, China e alguns países da África. “No Canadá é ainda pouco volume, mas é um mercado promissor, por serem itens similares ao que fazemos para os Estados Unidos, assim como o mercado colombiano, que também tem sido alternativa para alguns produtos. Estamos na esperança de abertura do mercado europeu, para ajudar a suprir as margens que tínhamos com os Estados Unidos, e também temos expectativa de aumentar o volume para o mercado chinês, embora ele seja um pouco similar ao mercado africano, com peixes inteiros e de pouco valor agregado”, detalha. 

A Fider também passou a direcionar produtos para outros destinos, principalmente para o mercado interno. “Apesar de muito importante e de ser um mercado bastante promissor, sabemos que menos de 5% da produção de tilápia brasileira é exportada. O mercado interno e outros países absorveram a redução nos EUA. Ainda mantemos algum volume de vendas por entender que o tarifaço não deve perdurar eternamente e queremos ter as portas desse importante mercado abertas aos nossos produtos”, relata Kubitza. 

No mercado doméstico, ao contrário do que se poderia esperar, a falta de escalabilidade e uma recuperação dos preços pagos ao produtor exerceram uma pressão altista sobre os preços da tilápia. “Isso reforça a tese de que o volume exportado, apesar de importante, ainda é pequeno frente ao mercado interno, que tem muito espaço para crescer no prato do consumidor brasileiro, que ainda come pouco peixe”, avalia.

Sordi, da C.Vale, explica que a cooperativa busca otimizar processos e explorar novos mercados. “Mas tudo isso é um processo demorado. Até agora, nenhum negócio novo foi fechado e o mercado interno não tem conseguido absorver toda a produção que era direcionada aos Estados Unidos.” Para ele, os mercados mais promissores como alternativas aos EUA são Canadá, Colômbia e Emirados Árabes Unidos. Na Allmare, a prioridade é fortalecer parcerias e retomar clientes em stand by. “Muito pouco é absorvido pelo mercado brasileiro, já que a maioria dos nossos produtos atende ao mercado externo”, afirma Studart. A empresa enxerga como boas rotas de escoamento Canadá, Austrália e Ásia como um todo.

A Brazilian Fish aposta no marketing doméstico e em feiras internacionais, como a Fine Food, na Austrália. “As vendas no mercado interno começam a aquecer somente em novembro e seguem até o final da Quaresma. Estamos trabalhando para abrir mercados no Canadá, México e Austrália”, detalha Castellan.

 

Este texto faz é a Parte 02 da "Capa" da Seafood Brasil #61. Para conferir esta matéria na íntegraclique aqui.

 

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Créditos da imagem: Seafood Brasil 

 

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