Decisão nos EUA reabre mercado, mas expõe gargalos globais
Queda de tarifas na Suprema Corte americana sinaliza retomada, mas evidencia a alta dependência brasileira de fluxos integrados
Eduardo Lobo - 25 de fevereiro de 2026
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Papel da Abipesca neste cenário
O episódio das tarifas impostas pelos Estados Unidos às importações de pescado em 2025 deixa lições relevantes para o comércio internacional de alimentos. Em um mercado globalizado, altamente dependente de fluxos integrados e previsibilidade regulatória, medidas unilaterais produzem efeitos que extrapolam fronteiras e geram custos sistêmicos - inclusive para quem as impõe.
No Brasil, os reflexos foram imediatos. As exportações de pescado para o mercado norte-americano registraram queda de 15,7 %. Cancelamentos de contratos e planos interromperam planejamentos produtivos, afetando indústrias, produções aquícolas e trabalhadores ao longo da cadeia.
Neste contexto, o Brasil ocupa a 13ª posição entre os fornecedores de pesca para os Estados Unidos, com pouco mais de 1% do volume importado por aquele país. Ainda assim, vinha consolidando presença em segmentos estratégicos, sobretudo na tilápia, cuja competitividade brasileira se apoia em escala produtiva, qualidade sanitária e capacidade de abastecimento regular.
Tabela 1: destino das exportações brasileiras de pescado. Dados: Comtrade e ComexStat - Edição Abipesca
Tabela 2: Ranking de países que fornecem pescado aos EUA. Dados: Comtrade e ComexStat - Edição Abipesca
No primeiro semestre de 2025, as exportações brasileiras de tilápia para os EUA tiveram progresso recorde, com crescimento expressivo sobre o ano anterior. O anúncio das tarifas, no entanto, reverteu as expectativas no segundo semestre, com retração superior a 35% na comparação anual. Embora o fechamento do ano ainda tenha indicado nível de expansão em volume, o potencial de crescimento foi comprometido e a previsibilidade abalada.
Importante destacar ainda que os impactos não se limitam ao Brasil. A China, principal fornecedora de tilápia para o mercado americano, também registrou queda relevante nas exportações. O resultado agregado foi diminuído da oferta e encarecimento do produto nos Estados Unidos, afetando importadores, distribuidores e consumidores.
Esse cenário revela uma contradição econômica: ao restringir especificamente um setor sem qualquer dependência estrutural externa, amplia-se a pressão inflacionária e reduz-se a eficiência da cadeia. O pescado não é apenas um item de comércio exterior, justamente porque é uma proteína essencial para a segurança alimentar e para políticas de nutrição saudável.
Diante do desafio, uma evidência institucional foi determinante. A Abipesca atuou desde o primeiro momento na defesa técnica do setor brasileiro, participando de debates junto às autoridades americanas no âmbito da Seção 301, reforçando que a pescado brasileiro integra cadeias que também geram empregos e valor nos Estados Unidos. A entidade intensificou ainda o diálogo com a National Fisheries Institute (NFI), ampliando a interlocução estratégica no mercado americano.
Internamente, a mobilização setorial contribuiu para sensibilizar o governo brasileiro quanto à necessidade de instrumentos emergenciais de apoio às empresas exportadoras. Em momentos de ruptura comercial, liquidez e crédito tornam-se fatores críticos para a preservação da capacidade produtiva.
A recente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de derrubar as tarifas representa inflexão relevante - leia mais aqui. A sinalização jurídica reforça a importância da legalidade e da previsibilidade nas políticas comerciais - a normalização dos fluxos deverá ocorrer nos próximos meses, ainda que parte dos exportadores brasileiros aceleraram outras estratégias de diversificação, ampliando presença em mercados como Canadá e México. Já outras cadeias como da tilápia não tiveram tempo de recolocar todo o volume no mercado internacional devido a barreiras comerciais, como o caso da União Europeia.
Tabela 3: Exportações da tilápia brasileira. Dados: Comtrade e ComexStat - Edição Abipesca
Para o mercado americano, a reversão tende a aliviar a pressão de custo e recompor gradualmente a oferta. Para o Brasil, abre-se a oportunidade de recuperar participação e consolidar imagem de fornecedor confiável. Mas o episódio deixa clara a necessidade de avançar em acordos comerciais, inteligência de mercado, agregação de valor e fortalecimento institucional.
O setor de pesca opera em ambiente global de competição crescente, critérios sanitários rigorosos e consumidores cada vez mais atentos à sustentabilidade. A estabilidade regulatória é condição essencial para investimentos de longo prazo.
O que a experiência recente evidencia é que o comércio internacional de alimentos não pode ser tratado de forma lógica exclusivamente conjuntural. Cadeias globais de proteína são interdependentes, sendo que o equilíbrio entre proteção legítima e integração econômica é garantir abastecimento, preços obtidos e desenvolvimento sustentável.
Sendo assim, a Abipesca seguirá participando na defesa técnica do setor, promovendo o diálogo internacional e fortalecendo a inserção estratégica do pescado brasileiro no mercado global. Mais para reagir a crises, é preciso construir previsibilidade — condição necessária para competitividade e segurança alimentar em escala global.
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Créditos da imagem: Seafood Brasil
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Sobre Eduardo Lobo

- Eduardo Lobo é presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca)







