Canetas emagrecedoras: o alerta na indústria alimentícia e no pescado
Cenário traz desafio e oportunidades ao pescado
29 de junho de 2026
O avanço dos medicamentos análogos de GLP-1 reconfigura o consumo e deixa de ser apenas uma questão de saúde para se tornar um disruptor econômico. Com a retração do apetite global, não é exagero dizer que a indústria de alimentos encara uma nova revolução. O desafio transformador agora é como garantir rentabilidade diante de volumes reduzidos.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a ascensão de novos medicamentos está transformando os hábitos de consumo e pode levar o setor alimentício à estagnação, segundo a revista Veja. Projeções da L.E.K. Consulting indicam que, após décadas de expansão anual de 0,7% na ingestão calórica, a demanda deve se estabilizar até 2035, com oscilações marginais entre uma queda de 0,29% e uma alta de 0,32%.
Entretanto, o cenário também é de oportunidade, como destaca Jairo Gund, diretor executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca). Segundo ele, o impacto é imediato e favorável, impulsionado por uma transformação cultural em que o consumidor passa a “comer menos, porém melhor”.
“Estamos diante de uma transformação cultural profunda na relação do consumidor com a alimentação. As chamadas canetas emagrecedoras aceleraram uma tendência que vinha se consolidando: menor volume por refeição, maior seletividade nutricional e uma busca muito mais racional por alimentos que entreguem proteína de alta qualidade, saciedade, conveniência e saudabilidade”, afirma.
Neste sentido, o pescado ocupa uma posição privilegiada. “Trata-se de uma proteína naturalmente alinhada ao conceito de nutrição moderna: alta densidade proteica, excelente digestibilidade, perfil lipídico mais saudável e forte associação com bem-estar, performance e longevidade”, explica Gund.
Para a indústria de alimentos, essa mudança de consumo exige uma revisão profunda nas formulações. Afinal, como destaca Gund, "o centro da inovação deixa de ser apenas sabor e conveniência e passa a ser ‘performance nutricional por mordida.”
Esse movimento de valorização proteica já orienta as estratégias dos maiores players globais. Um exemplo é a inauguração do JBS Biotech Innovation Center, em Florianópolis (SC). Com foco nas chamadas “superproteínas”, o centro de biotecnologia avançada dedicado à ciência aplicada nasceu para agregar valor à cadeia produtiva. A unidade atua em saúde animal, nutrição de precisão e desenvolvimento de proteínas funcionais.
“Estamos entrando em uma nova fronteira, em que é possível entender o potencial dos alimentos proteicos em nível molecular e desenvolver soluções com características nutricionais e funcionais sob medida para diferentes necessidades dos consumidores”, afirma Fernanda Berti, CEO da JBS Biotech. O mercado de suplementos proteicos está estimado em US$ 30 bilhões, com crescimento de 10% ao ano.
Toda essa alteração na demanda de consumo também provoca uma corrida entre as marcas. Em setembro do ano passado, a Seara anunciou o lançamento da PROTEIN, a primeira linha de refeições proteicas congeladas do País. Na ocasião, a marca trouxe três refeições completas com mais de 30g de proteína, menos de 340 calorias e adição de colágeno da Genu-In, empresa da JBS Novos Negócios. Esse é um movimento que conecta a Seara ao que há de mais avançado nos mercados globais e atende a uma demanda crescente por alimentação funcional e prática”, fala Rafael Palmer, diretor de marketing de alimentos preparados.
Esses investimentos validam a tese de que a demanda saiu do campo das ideias. Para o pescado, Jairo Gund destaca que a indústria já sente os efeitos desse movimento e precisa avançar em três frentes: maior concentração proteica, redução de gorduras totais e otimização do perfil de sódio e ingredientes funcionais. “Produtos com maior percentual de carne de peixe, blends enriquecidos com proteína isolada de pescado, colágeno marinho, ômega-3, fibras e micronutrientes tendem a ganhar espaço. Ao mesmo tempo, processos industriais que reduzam absorção de óleo, uso de coberturas mais leves e tecnologias de air fryer friendly passam a ser praticamente mandatórios”, completa.
Créditos da imagem: Canva







