Aquishow 2026: genética, sanidade e sistemas produtivos
Temas dominam palestras do primeiro dia do evento
10 de junho de 2026
O primeiro bloco do dia reuniu produtores e representantes de empresas do setor para debater as diferentes estratégias de produção de formas jovens de tilápia. A mesa foi moderada por Luiz Felipe Porto, da MAP Aqua, e contou com apresentações da Piscicultura Global Peixe, AcquaSul, GenoMar Genetics Brasil e Fazenda Santa Inês.
Giovano Neumann, da Fazenda Sana Inês, apresentou detalhes da unidade altamente automatizada de produção de juvenis no oeste do Paraná, onde toda a operação — do arraçoamento à classificação — é gerenciada remotamente por aplicativo. A estrutura é alimentada com poços artesianos, enquanto os tanques são revestidos por geomembrana e incluem um sistema de classificação contínua com balanças automáticas que registram biomassa em tempo real, permitindo que o gestor saiba exatamente quantos quilos de cada tamanho de peixe estão em cada ponto da operação. "A pessoa só precisa fazer a gestão de como vai o fluxo — a quantidade de peixe que ela direciona lá para dar fluidez ao sistema", descreveu Neumann.
Evandro Schmitt, da AcquaSul, trouxe uma perspectiva diferente ao painel. Com operação em Santa Catarina e um dos maiores produtores de alevino do país, ele defendeu que o melhoramento genético precisa ser tratado como estratégia, não como diferencial de mercado. "É um caminho sem volta", afirmou. A AcquaSul iniciou em 2020 um programa de melhoramento genético em parceria com a Embrapa, com foco em características como ganho de peso diário (GPD) e adaptação a diferentes condições de cultivo — incluindo sistemas com alta concentração de amônia e nitrito, que ainda são realidade em parte da produção nacional.
Rodrigo Zanolo, da GenoMar Genetics Brasil, reforçou o argumento com dados práticos. Segundo ele, o reconhecimento pelo melhoramento genético já se reflete nos preços pagos pelo mercado, e os produtores que ainda não adotaram animais geneticamente melhorados estão a caminho de fazer isso. "É um caminho sem volta", sintetizou. Para quem ainda tem dúvidas, a sugestão foi simples: colocar dois lotes do mesmo tamanho em tanques iguais, com a mesma quantidade de aeradores e ração, e comparar os resultados.
O segundo bloco, mediado pelo professor Frederico Augusto de Alcântara Costa, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), reuniu produtores e pesquisadores para apresentar as vantagens e desvantagens dos principais sistemas de produção de tilápia em uso no Brasil.
Adriano Gonçalves, do Frigorífico Fazenda do Peixe e da Piscicultura Gonçalves (MG), produtor desde 2010, abriu o bloco falando dos tanques-rede. Para ele, o maior atrativo do sistema segue sendo a facilidade de escala: com baixo investimento inicial, um produtor pode começar com uma gaiola e chegar rapidamente a centenas de toneladas. O carregamento rápido — até 7 mil quilos em 45 minutos — é outra vantagem competitiva importante para garantir o peixe fresco no frigorífico.
Mas os desafios são significativos. A dependência de 100% de ração (que representa entre 60% e 70% do custo de produção), as doenças e a regulamentação ambiental são os principais gargalos. Gonçalves levou 11 anos para obter o licenciamento ambiental da sua operação. No campo sanitário, a vacinação em duas etapas — primeiro contra iridovírus e depois contra Streptococcus e Lactococcus — desponta como nova estratégia, ainda em avaliação. A produtividade, que chegou a 90-95 kg por metro cúbico no início, hoje opera em torno de 60 kg/m³ por conta da pressão sanitária. "É um sistema altamente competitivo quando bem manejado", concluiu.
Bruno Scopel, engenheiro de aquicultura e sócio-fundador da Ecomarine Biotech, com mais de 20 anos de experiência em sistemas superintensivos, fez um panorama dos sistemas de bioflocos (BFT) e de recirculação de água (RAS). Ambos permitem alta produtividade em áreas reduzidas, melhor controle sanitário e produção mais próxima ao mercado consumidor — mas exigem investimento mais alto, mão de obra qualificada e monitoramento constante.
A principal diferença entre os dois é o mecanismo de controle de compostos nitrogenados: no BFT, a comunidade microbiana dentro do próprio tanque de cultivo faz esse trabalho; no RAS, biofiltros externos são responsáveis pela remoção de amônia e nitrito, com água mais clara e maior complexidade operacional. Scopel alertou que muitos sistemas de RAS têm enfrentado dificuldades de estabilização por falhas de projeto ou falta de conhecimento técnico aprofundado, e que nesses casos a conversão para bioflocos tem resolvido os problemas.
Para a engorda, a viabilidade econômica ainda é o grande desafio: "O peixe que a gente engorda nesse sistema, no final, é o mesmo peixe que o tanque-rede produz, que o viveiro escavado produz — e acaba competindo com o mesmo peixe no mercado." Para berçários e produção de juvenil, porém, o BFT já ocupa um espaço consolidado entre as principais empresas do setor. O sistema exige alevinos de alta qualidade e livres de patógenos — e insumos como fitoterapêuticos e probióticos ajudam a potencializar os resultados.
Jucilene Braitenbach, pesquisadora da Universidade Federal de Rondônia, trouxe a perspectiva dos viveiros escavados na Amazônia. O Brasil tem 780 mil viveiros escavados mapeados por satélite — a maior base territorial do mundo nesse sistema. Em Rondônia, 92% dos produtores têm menos de 5 hectares de lâmina d'água, e 62% têm menos de 0,5 hectare. Nesse contexto, os viveiros escavados são, antes de tudo, um instrumento de inclusão social e interiorização da produção.
A produtividade média é de 6 a 8 t/ha (chegando a 12 t/ha nas propriedades mais eficientes), sem aeração. O tambaqui é a espécie principal e o sistema é o mais adequado para sua produção, conciliando viabilidade econômica, adaptação biológica e menor complexidade operacional. Braitenbach também apresentou dados de um levantamento de 330 propriedades no âmbito do ProAqua, que aponta os 500 gramas como ponto ótimo de entrada do juvenil no sistema de engorda, equilibrando margem e tempo de ciclo. A pesquisadora destacou ainda novas rotas para o Pacífico — pelos portos de Ilo (Peru) — como oportunidade de escoamento da produção amazônica.
Paulo Roberto Poggere, gerente do departamento de peixes da C.Vale, encerrou o bloco apresentando o modelo de tanque escavado revestido com geomembrana que a cooperativa vem lapidando nos últimos anos. Com 280 produtores integrados num raio de 100 km e mil hectares de lâmina d'água, a C.Vale opera hoje com abate de 220 mil tilápias por dia e tem como meta chegar a 240 mil.
O modelo surgiu da necessidade de continuar crescendo numa região onde a terra e a água estão cada vez mais escassos. O tanque revestido — com 2.000 m² (16 m de largura por 125 m de comprimento) — permite uma densidade de produção de 30 kg/m² a 60 kg/m², contra 16 kg/m² do viveiro escavado convencional, com uso de apenas 20% da água em comparação ao sistema tradicional. "A piscicultura, quando a gente sai do viveiro escavado ou do tanque-rede, não é uma unidade consumidora de água — ela utiliza esse recurso, o retém e depois o devolve para o seu curso natural", explicou Poggere.
Outros atrativos do modelo são: mitigação da predação, eliminação do acúmulo de lodo no fundo, facilitação do licenciamento ambiental junto ao IAT (Instituto Água e Terra do Paraná) e maior facilidade para atender às exigências de certificações como ASC e BAP, necessárias para a exportação.
Créditos da imagem: Seafood Brasil
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