O grande dilema da biodiversidade
Aquicultura

O grande dilema da biodiversidade

Estima-se que tenhamos quase 3000 espécies de peixes de água doce descritas em nossa fauna

Ricardo Pereira Ribeiro - 11 de julho de 2019

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A nossa Biodiversidade de peixes é riquíssima, estima-se que tenhamos quase 3000 espécies de peixes de água doce descritas em nossa fauna. Este número tende a aumentar ainda mais, pois os taxonomistas continuam identificando novas espécies e estima-se que somente na Amazônia um número igual ou superior a este ainda está para ser descrito.
 
Dentre todas essas espécies existem um grande número com grande apelo comercial e tanto na pesca profissional quanto na pesca amadora esportiva, porém quando falamos em piscicultura comercial a discussão rapidamente torna-se acalorada e há defensores de estudos e desenvolvimento de pacotes tecnológicos para um grande número de espécies.
 
O fato que quero trazer para discussão não é sobre o valor cultural ou regional de uma dada espécie, sua qualidade da carne ou outras questões de preferência. O que temos que estar atentos é se tal espécie atende alguns quesitos zootécnicos básicos para se tornar uma prioridade para ser produzida em escala comercial, ou seja:
 
- Apresentar fecundidade em cativeiro, de modo que os indivíduos não necessitem ser continuamente aprisionados para serem utilizados pelo homem;
- Apresentar tendência hereditária a mansidão (ou domesticação), atributo pelo qual os animais que nascem no cativeiro aceitam facilmente o convívio com o homem e com outras espécies;
- Apresentar sociabilidade, característica das espécies dotadas de hábitos gregários, que permite a vida em bandos, próprias dos animais em estado de domesticidade;
- De preferência ocupar baixo nível trófico na cadeia alimentar devido ao menor custo de produção, de modo a não restringir nichos no mercado consumidor;
- Possuir aceitação ou potencial de aceitação de mercado internacional e não apenas regional, pois pode restringir sua expansão;
- Apresentar adaptabilidade a alimentação artificial em cultivo.
 
Outros requisitos também são importantes, porém de um modo ou de outro estão relacionados direta ou indiretamente com os anteriores.
 
Muitas experiências com espécies nativas que não atendem estes requisitos foram bem sucedidas, porém sempre em nível regional atendendo um mercado restrito e sem grandes possibilidades de expansão para grandes mercados. É fato que existe uma demanda de consumo para peixes que não são de origem de cultivo pelo mercado, inclusive das grandes redes varejistas, porém esses mercados são atendidos com produtos oriundos da pesca extrativista, sem entrar no mérito desta atividade, gostaria de colocar uma indagação, se seria possível produzir essas espécies em cultivo, atendendo a variedade, regionalismos e a um custo competitivo com a pesca extrativista?
 
No período de 2008 a 2012 a Embrapa através do Programa AquaBrasil, juntamente com a antiga Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca da Presidência da República (Seap) definiram as espécies de peixes de água doce prioritárias para investimentos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias para o país: Tilápia, Tambaqui, Surubins e Pirarucu, hoje adicionaria mais algumas poucas espécies a essa lista, pensando no futuro da atividade. 
 
É importante salientar que na pecuária e na agricultura também podemos apontar que para o consumo em massa, a humanidade elegeu um número restrito de espécies para o cultivo, frente a grande diversidade que existe na natureza. Utilizar recursos públicos que cada vez estão mais escassos para o desenvolvimento de pacotes tecnológicos que não irão atender um grande número de interessados e nem o desenvolvimento da atividade econômica no País deve ser um tema a ser discutido com muita maturidade e responsabilidade e cobrado pela sociedade.

 

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Sobre Ricardo Pereira Ribeiro
 
  • Professor associado na Universidade Estadual de Maringá (UEM)
 
 

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